Neta e Chico apearam em Tupanciretã no início dos anos 1940 e por lá ficaram até o fim dos anos 1960. Casal de retratistas. Dois chegaram, saíram sete.
Em Tupanciretã o nome Neta foi muito restrito a casa; mãe, mamãe para os filhos pequenos e Ecilda, Francisca, Retratista e Vitória.
Reportagem só quando Chico estava viajando, laboratório nunca, estúdio, galeria e acabamento. Fotografias coloridas com anilina.
A casa de madeira, devia ter 120 metros dos quais 40 estavam com o retrato, divididos entre a galeria, estúdio e laboratório, o resto para os quartos, sala, cozinha, copa e banheiro. Nesta casa eu convivi diariamente com a Neta por 17 saudosos anos. Esta casa tinha porão e um quintal 30 vezes maior do que a casa; jardim, caramanchão, pomar, horta, dois galpões, estrebaria, galinheiro e um apiário. Ficava a 100 metros da matriz.
A mãe falava, sempre que me via sair: "se comporte, nossa conduta é o retrato da nossa casa; cada um de nós é a nossa família, ao mesmo tempo que a nossa família é cada um de nós, ela é o que é, porque nós a fazemos assim".
Em São Paulo em cada um dos acidentes que me envolvi, agredi muito mais a Neta e a família do que qualquer possível sequela a mim. Nunca me imaginei nem em pensamento, impor a ela e aos meus a realidade de ser um prisioneiro.
Neta tinha por vocação ser madrinha, ser comadre; em São Paulo nem tanto, mas em Tupanciretã, na cidade e pra fora, acho que nunca esqueceu de seus afilhados e de seus compadres, hora e outra, durante nossos mates, ela comentava de algumas lembranças com saudade.
No jardim um pezinho de cinamomo, mesma idade que eu e quando andava ainda piá, ele já ia adulto de sombra fresca para mate quente. Quase na hora da nossa partida para São Paulo, um vento inesperado derrubou o cinamomo. Neta como me consolando: "ele não ficou, vai com a gente", e foi, e ainda vai por onde eu ando.
Na sala havia uma estante que exibia anos de Seleções do Reader Digest, bem lidas, bem conservadas. Chico lia muito e a família o seguia. De 1960 em diante a leitura na família incorporou livros, livros e Seleções.
Dezembro de 1957, ao concluir o primeiro ano, a professora Dona Nena Machado ditou uma carta para as mães contando que estávamos alfabetizados, começava: "Querida mamãe"; terminava: "um abraço do seu filho"(a), e cada um escrevia seu nome. Eu interferi queria que fosse um abraço apertado, ficou assim: "um abraço do seu filho apertado, Tupy". Ela riu muito, me abraçou, me beijou, arrancou a folha do caderno e guardou. Sempre ela recordava.
Não era rotina, mas as vezes a Neta costumava ler para mim, e assim o que sei: de Antigo Testamento, de Mitologia Grega, alguma coisa de Érico Veríssimo, de Hermann Hesse, de Camus e alguns outros escritores foi escutando ela ler em voz quase alta. Difícil acompanhar: " tá escutando? que foi que eu li?"..."ler, pensar, refletir" e completava, "qualquer coisa".
Algumas Netas: Elena nunca teria um filho de Paris e se tivesse, o pai seria Menelau. Saturno tomou os bens do pai depois perdeu para o filho Jupter e Urano nunca falou sua versão da história e continua vivo. Até a morte de Jango, ela pensava que ele fosse Prometeu e que Hercules era o povo que iria libertá-lo.
Passei 36 anos, 1969 até 2005, lendo a geografia natural ou transformada, no mínimo 6 horas por dia, em fotografias aéreas ou diretamente. Lendo e escrevendo em cartas o que lia. Pela Neta, escrevi muitas cartas.