Lembranças que guardo e considero importantes e que de uma ou outra maneira, todos com quem convivo e convivi, sabendo ou não, puderam sentir e sentem o sabor doce ou salgado que é conviver com este filho da Neta.

Solidariedade, fraternidade e amor



Na boca da noite, hora de rezar o terço na igreja, incendiou a casa de seu Álvaro, casal de idosos, fui com a mãe até a casa que queimava, tinha muita gente, voltamos para casa. Uma folha de papel almaço, Neta redigiu o cabeçalho para um abaixo assinado e voltamos. Ela escreveu solidariedade.


Perguntei: o que é solidariedade? "É socorrer com fraternidade e amor seu vizinho, dividindo com ele o que você tem. Doar sobras com sentimento de dar uma esmola é livrar-se do que não se quer, ajuda mas não é solidariedade", desumaniza quem dá e quem recebe.

Na maternidade está o maior atributo da humanidade que é a solidariedade: Nela a mãe se divide no que é, com quem ninguém, nem mesmo a mãe sabe quem será, mas se sabe que é uma parte, um pedaço da mãe. A humanidade toda, passado, presente e futuro, é um pedacinho de mãe que se dividiu em solidariedade para cada um existir, humanidade é solidariedade, consciente ou não.

Final de tarde vi o vizinho varrendo o quintal e fui ajudá-lo. De lá eu vi a Neta varrendo o quintal de casa. A noite enquanto jantava ela comentou minha ação de ajudar o vizinho, nada tinha contra que eu fosse amigo do vizinho, que eu fosse na sua casa e que até o ajudasse, mas que eu nunca esquecesse do meu quintal e permitisse que sua mãe ou irmã o varressem enquanto eu estivesse varrendo quintal alheio.

"Quando um não quer, dois não brigam; os incomodados que se retirem"; "Mãe! eu tenho que perder?" ;sorrindo, "isto depende de ti". Neta dizia: "razão vale o motivo, tudo tem um motivo, todos os motivos tem o seu ou os seus motivos, ontem fez o hoje que faz o amanhã, a razão para o agora não pode fazer este agora razão para a discórdia de amanhã.

Acho que a Neta conheceu Rousseau: o estado natural estava em casa e a fraternidade era a ordem.
Neta e seu evangelho de paz: costumava dizer que a paz em casa nunca viria de fora e a discórdia também. A paz nunca virá pelo trem das 10 hs, ou dos das 2 hs e ninguém precisa viajar para se encontrar com ela.  1. A paz não vem de fora e basta pensar nela, para ela ser possibilidade para todos.  2. Paz só existe se existe para todos.  3. Paz só existe pra quem vai ao seu encontro e este caminho começa na amizade fraterna ao seu irmão.  4. Encontrar a Paz não é caminhar na solidão.  5. Se o irmão não seguir junto, ninguém quis encontrar a Paz.  Neta nunca admitiu a discórdia. Paz é sinceridade é confiança.

Num de seus retornos ao sítio deixou uma carta para os filhos, uma cópia pra cada, falou que: “esta técnica de escrever carta evita certos riscos; não se conformava com a desunião dos filhos, mesmo sem ver brigas”...Os valores do amor familiar foram substituídos erroneamente pelos capitalistas, valores fraternos por valores monetários, temporários e insignificantes que não substituem o sentimentos que acompanham uma asinha de frango, uma mate de erva lavada, mas em família. A preocupação dela estava reservada as determinações para o futuro. Ela sabia, não conseguiu explicar.

E o futuro alcançado por todos se sustentou no serão das costureiras, mãe e duas das filhas, na humilhação do pobre retratista serviçal.