Lembranças que guardo e considero importantes e que de uma ou outra maneira, todos com quem convivo e convivi, sabendo ou não, puderam sentir e sentem o sabor doce ou salgado que é conviver com este filho da Neta.

Aula

"Somos todos aqueles que no cotidiano do dia a dia convivem com a gente".

Quando eles se negam para a gente, corremos o risco de não sermos mais nada.

Sensação de remorso quando contei para Neta de "um velho que todos os dias na mesmo hora cruza na calçada no sentido inverso ao meu, algumas vezes eu sorrindo o cumprimentei e ele com cara de quem não tem amigo me ignorou. A vida seguiu, o tempo passou e nesta manhã ele cruzou cambaleando por mim, parei pensei em oferecer socorro ele se afastava, segui meu caminho e vi pelo chão algumas manchas de sangue, olhei para trás ele já bem mais além ia cambaleando, voltei a caminhar com remorso por não ter oferecido ajuda".

A Neta tentando me acalmar, falou não ser algo grave, lamentando a falta de fraternidade entre pessoas que na vida dividem os mesmos espaços, disse: "somos todos aqueles que no cotidiano do dia a dia convivem com a gente, somos o padeiro, o colega, o motorista do ônibus..."

Começo

Pedro Gomes foi pai de Benevenuto Gomes que foi pai de Laurênio.

Neta: Pai uruguaio do Departamento de Salto, Laurênio de Castro Gomes, nasceu em 23 de maio de 1888; mãe gaúcha de Quarai, Palmira Cardoso da Silva, nasceu em 29 de agosto de 1888.
Casaram por volta de 1915.

Palmira e Laurênio tiveram quatro filhos: José, Tertúlio, Elvira, Antônio e a caçula Ecilda da Silva Gomes a Neta.

Neta, apelido de Ecilda, dado a ela antes do nome, nasceu em 6 de agosto de 1921.

Costume da avó materna ser a parteira dos netos, na impossibilidade da avó, haviam as parteiras que substituíam as avós. Neta nasceu com Laurênio de parteiro e ao anunciar o nascimento aos filhos disse: minha neta chegou. As crianças gritaram a Neta chegou. Este foi o seu nome: Neta, Netinha.

No sotaque uruguaio, Ezilda soa Ecilda.

1923/1924 - Traumas de Guerra

Consequências nefastas advindas de Laurênio; maragato que era, talvez por uma ascendência espanhola na Maragateria, ou por admiração aos federalistas de 1893; presente no movimento armado de 1923, entre ximangos e maragatos, e em 1924 manifestou simpatia a Luis Carlos Prestes na sua campanha.

Isto bastou para que a família enveredasse numa Odisseia, por quase 15 anos, Iraí para Palmeira, para Panambi, para Santo Ângelo, para Santiago.

Traumático a todos, até para a pequena Neta com três anos de idade.

Vaca de leite, cavalo eles levaram e mais de uma vez, saquearam a casa, levando o que tinham para comer.

Em 1961 o agito das duas semanas da Legalidade despertou na Neta os traumas que ela tinha como superado.

Em Tupanciretã, em 1924 houve um combate entre maragatos que seguiam para encontrarem-se com Prestes com as tropas legalistas. Os maragatos mortos no combate foram enterrados em um túmulo; no cemitério municipal. Todos os anos, no dia de finados, Neta e Chico com um ramalhete de palmas e copo de leite, cultivados por ele, num canteiro junto ao caramanchão, iam visitar o cemitério e colocar as flores no túmulo dos maragatos. A partir de 1960 ou 1961, até 1967 fui com eles.

Pedofilia

1963/64 cursei o primeiro e o segundo ginasial em Júlio de Castilhos, ficava de segunda pela madrugada, até sexta feira ao meio dia fora de casa.

Numa das sextas logo após ao 13 de março de 1964, ao voltar para casa, Neta me esperava para conversar, estava feliz com o anúncio de progresso para o futuro do Brasil, feito por Jango no discurso da Candelária, ela e o Chico haviam acompanhado pela transmissão via rádio.

Em uma folha de caderno fixa com durex na parede da sala ela escreveu: "13 de Março" e "1 de Maio".

Ao retornar para casa após o primeiro de abril do Golpe militar, o papel não estava mais lá. Lembro do Absalão, foi preso, demitido da RFFSA ou da VFRGS, era ferroviário, acusado e processado por participar do "Grupo dos 11". 

A nós povo restou aprender a sobreviver com as traições, falsidades e ausência de democracia. Muitas foram as histórias vitimando parentes, amigos, conhecidos, até mesmo nós; algumas de extrema violência e todas com o objetivo maior de negar o futuro para as crianças. Pedofilia pura.

Sem democracia não há pertencimento nem da própria vida. Democracia é um atributo fundamental para o exercício da liberdade: é direito humano.

Morando em São Paulo em 1972, ao chegar em casa ela estava preocupada comigo, um homem de boina estava a minha procura e ela falou que não conhecia ninguém chamado Tupy; meu financiamento não foi aprovado

Abelha rainha

Irai-RS, cidade gaúcha, é estância hidromineral, lá existem fontes de águas quentes. Curiosamente irai quer dizer mel de água, para o tupy “i” é água e “ci” é a mãe! quando se fala iraci vale lembrar que toda abelha também tem mãe. Irai é a terra natal da “Neta” a "Netinha", guria sapeca, mãe, avó. Minha abelha-rainha.

Irai região serrana, de matas de mate com mato florido produzindo néctar para um mel muito especial, o mel silvestre do Irai é "irai", um mel de textura muito fina, aroma e sabores suaves, muito característico e como todos os outros, nobre. Mel para se colher no final da primavera.

A minha relação com a apicultura iniciou em 1951, quando nasci, Chico e Neta começaram, neste ano, acho que sem saber, um pequeno apiário no quintal, era só uma caixa com abelhas, lá em Tupanciretã-RS. Em1969 a família mudou-se para São Paulo e então vendeu o apiário com 200 colmeias,creio que mais de 90% africanizadas e com as quais, naquele quintal a 100 metros da matriz da cidade, se manteve um convívio britânico, seguro e responsável.

Cinco décadas longe do apiário.

Algumas recordações, histórias lincadas a experiência da vida criança e adolescente, mas com muito feromona. Pode ser irônico, mas talvez pela quantidade de mel consumida, ferroadas colecionadas, horas manipulando produtos e equipamentos, ou até a falta de um bom banho, seja a razão para eu ser identificado por abelhas, nos mais diferentes lugares por onde ando.

Onde a falsidade não vigora

Lá fora numa fazenda, eu devia ter menos de um ano, ainda bebê de colo, Neta sorrindo me segurou no lombo de um cavalo para o Chico retratar.

Bebê virou gurizinho e este retrato rendeu, a ponto da Neta pedir um cavalo para o  avô. E o avô deu. Foi um presente do pai da Neta para seus netos. Era um cavalinho reforçado, meio petiço, daqueles que junto de  um petiço parecia o que não podia parecer quando  junto de um cavalo pequeno.

Curti o petiço, ele  era o verdadeiro petiço de piá, companheiro dos meus 7 anos até os 12, era queixudo, cheio de cocegas, mal domado, mas o meu companheiro, o meu pingo. Época de aula sempre ficava pra fora, nas férias eu ia buscá-lo. Quando me reconhecia corria relinchando para perto e ficava pastando, me aproximava, ele afastava um pouco e continuava a pastar.

Um dia ao voltar da escola a Neta me chamou para conversar. Falou em portunhol: "só no perde quem nada tiene" e conversou, explicou até que o petiço surgiu para as conclusões, entendi; se eu não tivesse um cavalo, não iria perder um cavalo porque eu não tinha um cavalo para perder. Resumindo: eu perdi.

Entre tantas alegrias que este carinho dela proporcionou: "lá estávamos em Santa Luzia, sozinhos e a galope, piá e petiço corredor afora, momento e outro a passo para o resfolego do pingo, se não, pode abombar o cavalo. Trotar nem pensar, o trote de petiço é seco, não rende e chacoalha até a alma.

Manhã, sol, vento de trotão rabugento que quando rufa nas árvores faz Vrr...vrr...vrrrrr; e na cara? Tapeia a aba do chapéu e faz Vuu..vuu...vuuuu; compasso, marcado no procotó...procotó...procotó...procotó... quando se morde o vento, o vuu.. vira vaaa... Inocência musical mundo afora la fora, uma delícia.

No próximo galope com vento na cara, sempre continuava a música e cada música clássica, vida afora, já sem o meu flete, um galope solitário. Adoro cavalgar.

O velho da Neta

“Não conheci pilcha de prenda, mais linda do que o sorriso bugre da Netinha”.

Na soleira do rancho, bombeando pro corredor, sempre na espreita de ver o velho chegar para sorrindo oferecer-lhe um mate.

Passou a vida toda esperando eu voltar, estivesse eu onde estivesse, ela também e a hora que fosse.

Só não a vi sorrir, na madruga de 10 de agosto de 1982, eu levei a notícia que o pai não estava mais conosco, estava ainda a alguns metros de casa, ela abriu a porta olhando para mim disse: "Chico morreu", neste dia ninguém sorriu, o mate amargo foi muito triste.

Acho que foi em março de 1939 que casou com Francisco de Sales Marques Correa, um retratista 10 anos mais velho. Então, Ecilda Gomes Correa.

Neta e Chico, companheiros por 53 anos. Os últimos 5 anos desta união foram num sítio, na beira de um córrego, num costado de mata, com bananas, horta, galinhas, patos, cachorro e gatinho.

Viúva comentou: "50 anos na cidade não pagam 1 de sítio". Teve cinco filhos, dois homens e três mulheres; Tupã em 1948, Tupy em 1951, Nayá em 1954, Lorena em 1958 e Lena em 1964.

Os nomes indígenas escolhidos na ancestralidade "guaranítica paraguaia", motivo acordado pelos dois. Para Tupã e Nayá até lenda indígina ela contava, mas para Tupy sempre desconversava, desconversava??? vez ou outra ela dizia para mim: "você nasceu enrrugadinho, tão bonitinho, parecia um velhinho"; olhava meus primeiros retratos, nunca consegui ver as rugas e o velhinho.

Estava numa reunião em 2013, 28 anos após sua ida, eu com 62 anos, vi um senhor assinar e ler a lista de presença, olhou para os participantes dizendo: "tem um velho conosco", fiquei cabreiro, ao chegar em casa tive a curiosidade que eu nunca tive antes, abri o dicionário Houaiss, estava lá, a Neta pode ter receado que eu não fosse entender, mas não escondeu.

Então, lá por 1971, trabalhando de madrugada, pedi para o chefe não me deixar sozinho com o velho: "ele insiste em ficar junto de mim"; o chefe respeitou, mas espalhou pela empresa a história que o Tupy tinha medo, o velho virou a velha, a "velha da TerraFoto" e por   20 anos muitas foram as histórias com a "Velha da TerraFoto", vividas e contadas por muitos colegas. Agora penso e acho graça.

Viver é construir o futuro

Em 1958 no terceiro primário, do Grupo Escolar Joaquim Nabuco, Tupanciretã, eu mais pequeno que hoje, a mãe escutou a queixa da professora, Terezinha Ortiz, por eu não ter feito nenhum dos mapas de geografia.

Todas as tardes num caderno de desenho eu fazia um, com atenção total da Neta, eu desenhava, ela ajudava, ou ela desenhava e pintava e eu assistia.

Eram vários mapas do estado do Rio Grande do Sul, encheu o caderno, como regiões, cidades principais, lembro do mapa dos principais rios, ela contou história de quando menina morou em Panambí na margem do Rio Fiúza: bicicleta de madeira dos irmãos, gatinha preta, água na talha, de uma cheia no Rio Fiúza levando um ranchinho com a correnteza e um galo na cumeeira.

Em 1969, com 18 anos, morando na Monções em São Paulo, falei pra Neta em me inscrever em um concurso para um curso profissionalizante, na VASP, ali no bairro na rua Nova York. Ela falou que sabia onde era e numa folha de caderno desenhou o trajeto comentando e anotando, ruas, igreja, escola, uma grande arvore, destaques que haviam no caminho.

Passei no concurso e o que fui aprender foi nada mais do que ela, na explicação desenhada naquela folha de caderno me ensinou. Fundamental também aqueles mapas do primário e os 18 anos de convívio com a fotografia. Fazer mapas com aero fotos medidas em precisão, aerofotogrametria.

Nos 36 anos trabalhando com fotos e mapas os conceitos nunca se alteraram, ainda são os mesmos contidos na chave fornecida pela Neta. Houve muita mudança sim. Processos gráficos se tornaram digitais e a analogia migrou para o semianalítico se extinguindo os dois no analítico. Minha especialização: "matemático analógico".

Chimarrão

Chimarrão, uma paixão, vida afora. Quem toma chimarrão tem um índio vivo na alma, cultua a ancestralidade.

Quando eu estava no sítio, ainda madrugada, Neta fazia o fogo, aquecia a água, começava o mate, novo e gordo e me acordava. Ficávamos sentados ao lado ao fogão sorrindo e chimarreando, esperando pelo dia e os outros acordarem. O Chico era o primeiro.

Em São Paulo não era diferente, de madrugada a Neta me acordava com um mate, eu sentava na cama, ela do lado e mateávamos em total silêncio até as seis e meia.

Em 1959 a Neta viajou a Porto Alegre por motivo de saúde, Tupã interno no seminário, Nayá e Lorena ficaram na casa do padrinho Antônio, eu e o pai ficamos em casa por duas semanas. Todos os dias rezamos ajoelhados na frente de um quadro do Sagrado Coração de Jesus pela saúde da mãe. Nunca falei com ela sobre isto e acho que o Chico também não.

Quando comecei falar, tive dificuldade para pronunciar o "R", Chico e Neta se socorreram de exercícios comigo. Seguramente não tenho como me lembrar, mas um dos exercícios sobreviveu ao trauma da fala e acabou fazendo parte das nossas vidas, a vida toda. Costumava brincar contando para o Chico e para a Neta um dos exercícios: Rraimundo, falava que tinha um burro muito corredor, convidado para uma carreira ele rrespondia, me rroubaram levaram pra lá de Rrosário e se alguém insistisse ele dizia, não adianta já morreu. Eles olhavam para mim e sorriam.
Dia destes é que entendi a lição: era para reconhecer os Raimundos antes de passarem por mim, não depois de terem passado.
Lembro duas músicas cantadas pela Neta, desde meus tempos criança, sempre que pegava um bebê no colo: “Ronron nenito, ronron mi sueño, pedazo de mi corazón” e outra quando estava só em alguma tarefa Desde que se fue, triste vivo jô, caminito amigo, jô también me voy”. Numa sutileza quase imperceptível via o gosto por música,  quando menina tocava gaita.
"Sus conocidos mama? por cierto, me saludaran" e "éle ó, ló, jotaa já, venda".

Vaca mansa, leite gordo

A vó deu uma vaca mansa para a Neta. Primeira vaca de leite da família.

Na viagem de Santiago para Tupanciretã o caminhão que trazia a vaca, tombou. Fora o susto a Cabrita nada sofreu, mas ficou traumatizada, qualquer barulho e movimento brusco ela tremia e se mijava.

A vó trocou a Cabrita pela Baita.

Para tirar leite da vaca é preciso obedecer uma ritualística, coisa que a Neta, filha da vó, conhecia melhor do que o Chico e hoje eu sei, melhor que muita gente: madrugada; prender a vaca junto a manjedoura; manear as patas traseiras prendendo junto o rabo; lavar o ubre; fazer o terneiro apojar em todas as tetas, prender o terneiro e tirar o leite. O primeiro leite é o apojo.
A Neta incluiu neste ritual duas canecas com açúcar e canela, então o apojo ia para estas canecas. Canecas cheias com apojo quentinho e espumante ela corria até a cama dos filhos acordava-os. Levanta, se arruma que tá na hora.

Ninguém saia sem antes tomar o café com leite e pão, sempre pão feito em casa, com mel ou manteiga, também caseiros.

A Lorena, dos cinco filhos, foi a única que acompanhou a Neta na lida da ordenha.

Em 1983 uma novilha deu cria lá no sítio, ela com mais de 60 anos amansou a novilha. Teve leite queijo e manteiga no sítio


Solidariedade, fraternidade e amor



Na boca da noite, hora de rezar o terço na igreja, incendiou a casa de seu Álvaro, casal de idosos, fui com a mãe até a casa que queimava, tinha muita gente, voltamos para casa. Uma folha de papel almaço, Neta redigiu o cabeçalho para um abaixo assinado e voltamos. Ela escreveu solidariedade.


Perguntei: o que é solidariedade? "É socorrer com fraternidade e amor seu vizinho, dividindo com ele o que você tem. Doar sobras com sentimento de dar uma esmola é livrar-se do que não se quer, ajuda mas não é solidariedade", desumaniza quem dá e quem recebe.

Na maternidade está o maior atributo da humanidade que é a solidariedade: Nela a mãe se divide no que é, com quem ninguém, nem mesmo a mãe sabe quem será, mas se sabe que é uma parte, um pedaço da mãe. A humanidade toda, passado, presente e futuro, é um pedacinho de mãe que se dividiu em solidariedade para cada um existir, humanidade é solidariedade, consciente ou não.

Final de tarde vi o vizinho varrendo o quintal e fui ajudá-lo. De lá eu vi a Neta varrendo o quintal de casa. A noite enquanto jantava ela comentou minha ação de ajudar o vizinho, nada tinha contra que eu fosse amigo do vizinho, que eu fosse na sua casa e que até o ajudasse, mas que eu nunca esquecesse do meu quintal e permitisse que sua mãe ou irmã o varressem enquanto eu estivesse varrendo quintal alheio.

"Quando um não quer, dois não brigam; os incomodados que se retirem"; "Mãe! eu tenho que perder?" ;sorrindo, "isto depende de ti". Neta dizia: "razão vale o motivo, tudo tem um motivo, todos os motivos tem o seu ou os seus motivos, ontem fez o hoje que faz o amanhã, a razão para o agora não pode fazer este agora razão para a discórdia de amanhã.

Acho que a Neta conheceu Rousseau: o estado natural estava em casa e a fraternidade era a ordem.
Neta e seu evangelho de paz: costumava dizer que a paz em casa nunca viria de fora e a discórdia também. A paz nunca virá pelo trem das 10 hs, ou dos das 2 hs e ninguém precisa viajar para se encontrar com ela.  1. A paz não vem de fora e basta pensar nela, para ela ser possibilidade para todos.  2. Paz só existe se existe para todos.  3. Paz só existe pra quem vai ao seu encontro e este caminho começa na amizade fraterna ao seu irmão.  4. Encontrar a Paz não é caminhar na solidão.  5. Se o irmão não seguir junto, ninguém quis encontrar a Paz.  Neta nunca admitiu a discórdia. Paz é sinceridade é confiança.

Num de seus retornos ao sítio deixou uma carta para os filhos, uma cópia pra cada, falou que: “esta técnica de escrever carta evita certos riscos; não se conformava com a desunião dos filhos, mesmo sem ver brigas”...Os valores do amor familiar foram substituídos erroneamente pelos capitalistas, valores fraternos por valores monetários, temporários e insignificantes que não substituem o sentimentos que acompanham uma asinha de frango, uma mate de erva lavada, mas em família. A preocupação dela estava reservada as determinações para o futuro. Ela sabia, não conseguiu explicar.

E o futuro alcançado por todos se sustentou no serão das costureiras, mãe e duas das filhas, na humilhação do pobre retratista serviçal.

Pecado(?) original.

Neta e Chico apearam em Tupanciretã no início dos anos 1940 e por lá ficaram até o fim dos anos 1960. Casal de retratistas. Dois chegaram, saíram sete.
Em Tupanciretã o nome Neta foi muito restrito a casa; mãe, mamãe para os filhos pequenos e Ecilda, Francisca, Retratista e Vitória.

Reportagem só quando Chico estava viajando, laboratório nunca, estúdio, galeria e acabamento. Fotografias coloridas com anilina.

A casa de madeira, devia ter 120 metros dos quais 40 estavam com o retrato, divididos entre a galeria, estúdio e laboratório, o resto para os quartos, sala, cozinha, copa e banheiro. Nesta casa eu convivi diariamente com a Neta por 17 saudosos anos. Esta casa tinha porão e um quintal 30 vezes maior do que a casa; jardim, caramanchão, pomar, horta, dois galpões, estrebaria, galinheiro e um apiário. Ficava a 100 metros da matriz.

A mãe falava, sempre que me via sair: "se comporte, nossa conduta é o retrato da nossa casa; cada um de nós é a nossa família, ao mesmo tempo que a nossa família é cada um de nós, ela é o que é, porque nós a fazemos assim".

Em São Paulo em cada um dos acidentes que me envolvi, agredi muito mais a Neta e a família do que qualquer possível sequela a mim. Nunca me imaginei nem em pensamento, impor a ela e aos meus a realidade de ser um prisioneiro.

Neta tinha por vocação ser madrinha, ser comadre; em São Paulo nem tanto, mas em Tupanciretã, na cidade e pra fora, acho que nunca esqueceu de seus afilhados e de seus compadres, hora e outra, durante nossos mates, ela comentava de algumas lembranças com saudade.

No jardim um pezinho de cinamomo, mesma idade que eu e quando andava ainda piá, ele já ia adulto de sombra fresca para mate quente. Quase na hora da nossa partida para São Paulo, um vento inesperado derrubou o cinamomo. Neta como me consolando: "ele não ficou, vai com a gente", e foi, e ainda vai por onde eu ando.

Na sala havia uma estante que exibia anos de Seleções do Reader Digest, bem lidas, bem conservadas. Chico lia muito e a família o seguia. De 1960 em diante a leitura na família incorporou livros, livros e Seleções.

Dezembro de 1957, ao concluir o primeiro ano, a professora Dona Nena Machado ditou uma carta para as mães contando que estávamos alfabetizados, começava: "Querida mamãe"; terminava: "um abraço do seu filho"(a), e cada um escrevia seu nome. Eu interferi queria que fosse um abraço apertado, ficou assim: "um abraço do seu filho apertado, Tupy". Ela riu muito, me abraçou, me beijou, arrancou a folha do caderno e guardou. Sempre ela recordava.

Não era rotina, mas as vezes a Neta costumava ler para mim, e assim o que sei: de Antigo Testamento, de Mitologia Grega, alguma coisa de Érico Veríssimo, de Hermann Hesse, de Camus e alguns outros escritores foi escutando ela ler em voz quase alta. Difícil acompanhar: " tá escutando? que foi que eu li?"..."ler, pensar, refletir" e completava, "qualquer coisa".
Algumas Netas: Elena nunca teria um filho de Paris e se tivesse, o pai seria Menelau. Saturno tomou os bens do pai depois perdeu para o filho Jupter e Urano nunca falou sua versão da história e continua vivo. Até a morte de Jango, ela pensava que ele fosse Prometeu e que Hercules era o povo que iria libertá-lo.

Passei 36 anos, 1969 até 2005, lendo a geografia natural ou transformada, no mínimo 6 horas por dia, em fotografias aéreas ou diretamente. Lendo e escrevendo em cartas o que lia. Pela Neta, escrevi muitas cartas.

Formação Política

A base da formação política em casa estava com a raça bugra missioneira, primeiro gaúcho descendente direto do povo socialista guarani.
Quando criança além de querer andar a cavalo, ter um lenço vermelho, fazer e tomar mate, vivi para importunar, queria ser gaúcho e viver no campo como um gaúcho.
Neta: gaúcho, foram os primeiros filhos da terra depois que mataram os índios, nunca foi dono de nada porque foi dono de tudo e quando cercaram os campos, só tinha o corredor para eles, não eram donos de nada. “Campo fechado é gaucho desgarrado”, que é a mesma coisa, o primeiro pela liberdade cercada, o segundo pela liberdade perdida. Sem liberdade é difícil justificar a igualdade e igualdade é a justiça. Justiça é igualar.
No Panamá em 1987, fui orador na graduação da Classe 70A, Escuela Cartografica do Serviço Geográfico Inter Americano, estudantes latino-americanos.
Saudamos a escola dizendo que éramos conscientes, que estávamos ali representando nossas famílias e para onde retornávamos agora, representando a escola.
Aos professores o nosso reconhecimento pelo espírito de gênio e alma de artista, homogeneizaram os heterogêneos dando a todos o melhor de si.
Aos colegas ressaltamos sermos irmãos, um só povo e termos cultura de paz, nossa vontade comum de progredir comprometida em não ferir a memória dos nossos antepassado, nem por em risco a vida e a segurança das nossas gerações futuras.Eu? um técnico, bugre.
O ianque de farda: "democrata cristiano?" Respondi em português; "filho da minha mãe", hijo de mi madre.

Política da libertação

Se em 1962 o Brasil vivia o prenúncio de mudanças de paradigma, nossa família não teve a oportunidade de saborear o prenúncio.

Numa prova de religião com a questão, "quais as causas das injustiças sociais?" , Tupã um adolescente de 14 anos respondeu, que "era a espoliação e o principal espoliador era a igreja". Assunto interno de uma disciplina menor, de um curso de primeiro grau, mas ganhou dimensão inimaginável. Um adolescente ex seminaristinha, o professor o padre e a sociedade católica ameaçada pela invasão pentecostalista estadounidense, bastou para reviver os "saques das tropas legalistas", perseguição ao pai e roubo na tina e no balaio onde a família guardava a comida, revivendo 1924. Com cenas protagonizadas até* na Assembleia Legislativa.

As mudanças das nossas vidas foram radicais, os baques foram absorvidos, Chico seguiu na sua função, de pai, de protetor da família; Neta na de mãe, de companheira, reorientou tudo, sem transferir responsabilidades maiores aos filhos que assimilaram as mudanças, mesmo a mudança para São Paulo, como fatos normais da vida, sempre resistindo, encarando os problemas, incentivando a resistência inteligente aos espoliadores. Neste momento a costura e a malha substituiu o retrato. Lena seguiu com a malha.

Em 1989 todos os funcionários da TerraFoto onde eu trabalhava se organizaram, não permitiram serem privatizados e pediram demissão coletiva, tinha certeza que a minha participação era uma solene homenagem a Netinha.

Neta: "Quando a vida amarga, nao devemos nos iludir com esperanças vãs, copo de vidro, toalha rendada, não desamargam o fel servido". Fantasias impedem de ver e encontrar soluções que libertam.

A turma

Almoços aos domingos, nos dias de festa, todos os dias da semana todos juntos. Tupã ficava internado no seminário, nas férias seu lugar na mesa e o seu pedaço do frango eram sagrados. Esta tradição São Paulo acabou, de manhã e a noite também. São Paulo e a vida acabou até com a família, foi Tupã, Lorena, depois Chico, Nayá, depois Neta. Lena a companheira inseparável da Neta e eu resistimos.

Chico foi o companheiro da Neta e companheiro dos filhos. Companheirão. Tudo com ele era muito especial. Não estava mais conosco quando um dia um pé de manacá de frente para á porta da casinha amanheceu florido; Neta sorrindo e chorando contou que falou para ele da vontade de ter um pé de manacá junto à casa.

Quando casaram numa conversa um dos dois falou: “nos somos como bofes e coração, não podemos esquecer, o que faz bem ou mal pra um, faz o mesmo para o outro”. nunca me senti bofe ou coração, porque era e ainda sou os dois.

Sempre tive consciência que meu único amigo era o Chico, perdoem todos os outros inclusive os irmãos.

Até hoje, minhas conquistas não seriam sem o apoio do Chico e da Neta, e em todos os tombos que tive, sempre contei com a mão e o carinho deles.

Banho de cachoeira

Tarde soleada. De bombacha cinza e sem camisa, sorriso maroto de quem nunca rejeitou a lida e a luta.
Com carinho olhou pra Neta como que dizendo: até já.
Seguiu bordeando a sanga, que ladeava o rancho rumo a cachoeira.
Neta mateou solita na sombra da bergamoteira, escutando no rumorar das águas, velhas cantigas, velhos assobios. Saudades da pampa.
No fogão uma galinha com arroz. No pasto a novilha o leite gordo. Pelas paredes retratos dos filhos. A criação pelo quintal...
Por que não um mate com o velho? Matear na cachoeira. Por que não um banho?
Com seu sorriso missioneiro, herança da raça bugra. Como o velho, seguiu bordeando a sanga, como que dizendo: o já, já é.
Bem assim foi, bem assim é.
Bem assim: nas águas da cachoeira depositei as cinzas junto com as irmãs Nayá e Lena; agosto de 1982 as do Chico, março de 1985 as da Neta.

Notas para Neta

Aula: 

1978 morei a 500 metros da casa da Neta.
Todos os dias saía de casa às 6, caminhava até a Neta para tomarmos um mate antes de seguir para o trabalho.
Nesta situação aconteceu esta história com Camus.
Lhe contei A Queda.
Ela concluiu com O Estrangeiro

Começo:

Os assassinatos de familiares são  fenômenos que mereceriam ser estudados.
Um filho de Pedro Gomes, avô de Laurênio, assassinado no final da tarde enquanto encerrava os terneiros, primeira metade do século XIX.
Os dois irmãos de Laurênio assassinados na década de 1930 um no sul e outro no Mato Grosso
Um filho com sua esposa assassinados na década de 1940, ele no Paraná, ela no Mato Grosso.
Uma filha de Laurênio, a Neta, assassinada em 1985 em São Paulo.
Um dos filhos da Neta, eu, sobreviveu a uma agressão de morte no Pará em 2004.
Na primeira metade do século XIX a mãe de Pedro Gomes querendo livrar a família de violências, internou seu único filho num seminário.
O quê ela viu e viveu? Qual razão?
Pedro fugiu do seminário e deve ter morrido de velho, mas a  família como previu a bisavó de Laurênio, tempos em tempos alguém foi assassinado, iniciando com um filho de Pedro, se arrastando ainda por quase dois séculos.
Naturalmente que cada uma destas violências tiveram suas razões. Mas querendo ou não, cada uma se lembra a preocupação daquela avó.

Política da Libertação:

Cuidado, a necessidade abre todas porteiras para o chiqueiro... no sofrimento surge a solução pra quem não se entrega.

Pecado(?) original:

Erico Veríssimo e Ana Terra! Erico Veríssimo conta que Ana Terra teve um filho com um índio missioneiro, o índio morto pela família de Ana e a família de Ana morta por assaltantes, ela foi ser parteira na cidade de Santa Fé, como parteira assumiu símbolo da mãe. Desprezo ao nome “Terra, que quer dizer chão”, terra foi a mãe do índio morto pelo invasor e mãe do filho deste mesmo invasor, miscigenando culturas, parindo assim o gaúcho. O índio missioneiro tinha assimilado alguma cultura européia, era alfabetizado e contava lenda cristã incorporada com elementos da sua cultura.