Lá fora numa fazenda, eu devia ter menos de um ano, ainda bebê de colo, Neta sorrindo me segurou no lombo de um cavalo para o Chico retratar.
Bebê virou gurizinho e este retrato rendeu, a ponto da Neta pedir um cavalo para o avô. E o avô deu. Foi um presente do pai da Neta para seus netos. Era um cavalinho reforçado, meio petiço, daqueles que junto de um petiço parecia o que não podia parecer quando junto de um cavalo pequeno.
Curti o petiço, ele era o verdadeiro petiço de piá, companheiro dos meus 7 anos até os 12, era queixudo, cheio de cocegas, mal domado, mas o meu companheiro, o meu pingo. Época de aula sempre ficava pra fora, nas férias eu ia buscá-lo. Quando me reconhecia corria relinchando para perto e ficava pastando, me aproximava, ele afastava um pouco e continuava a pastar.
Um dia ao voltar da escola a Neta me chamou para conversar. Falou em portunhol: "só no perde quem nada tiene" e conversou, explicou até que o petiço surgiu para as conclusões, entendi; se eu não tivesse um cavalo, não iria perder um cavalo porque eu não tinha um cavalo para perder. Resumindo: eu perdi.
Entre tantas alegrias que este carinho dela proporcionou: "lá estávamos em Santa Luzia, sozinhos e a galope, piá e petiço corredor afora, momento e outro a passo para o resfolego do pingo, se não, pode abombar o cavalo. Trotar nem pensar, o trote de petiço é seco, não rende e chacoalha até a alma.
Manhã, sol, vento de trotão rabugento que quando rufa nas árvores faz Vrr...vrr...vrrrrr; e na cara? Tapeia a aba do chapéu e faz Vuu..vuu...vuuuu; compasso, marcado no procotó...procotó...procotó...procotó... quando se morde o vento, o vuu.. vira vaaa... Inocência musical mundo afora la fora, uma delícia.
No próximo galope com vento na cara, sempre continuava a música e cada música clássica, vida afora, já sem o meu flete, um galope solitário. Adoro cavalgar.