Lembranças que guardo e considero importantes e que de uma ou outra maneira, todos com quem convivo e convivi, sabendo ou não, puderam sentir e sentem o sabor doce ou salgado que é conviver com este filho da Neta.

O velho da Neta

“Não conheci pilcha de prenda, mais linda do que o sorriso bugre da Netinha”.

Na soleira do rancho, bombeando pro corredor, sempre na espreita de ver o velho chegar para sorrindo oferecer-lhe um mate.

Passou a vida toda esperando eu voltar, estivesse eu onde estivesse, ela também e a hora que fosse.

Só não a vi sorrir, na madruga de 10 de agosto de 1982, eu levei a notícia que o pai não estava mais conosco, estava ainda a alguns metros de casa, ela abriu a porta olhando para mim disse: "Chico morreu", neste dia ninguém sorriu, o mate amargo foi muito triste.

Acho que foi em março de 1939 que casou com Francisco de Sales Marques Correa, um retratista 10 anos mais velho. Então, Ecilda Gomes Correa.

Neta e Chico, companheiros por 53 anos. Os últimos 5 anos desta união foram num sítio, na beira de um córrego, num costado de mata, com bananas, horta, galinhas, patos, cachorro e gatinho.

Viúva comentou: "50 anos na cidade não pagam 1 de sítio". Teve cinco filhos, dois homens e três mulheres; Tupã em 1948, Tupy em 1951, Nayá em 1954, Lorena em 1958 e Lena em 1964.

Os nomes indígenas escolhidos na ancestralidade "guaranítica paraguaia", motivo acordado pelos dois. Para Tupã e Nayá até lenda indígina ela contava, mas para Tupy sempre desconversava, desconversava??? vez ou outra ela dizia para mim: "você nasceu enrrugadinho, tão bonitinho, parecia um velhinho"; olhava meus primeiros retratos, nunca consegui ver as rugas e o velhinho.

Estava numa reunião em 2013, 28 anos após sua ida, eu com 62 anos, vi um senhor assinar e ler a lista de presença, olhou para os participantes dizendo: "tem um velho conosco", fiquei cabreiro, ao chegar em casa tive a curiosidade que eu nunca tive antes, abri o dicionário Houaiss, estava lá, a Neta pode ter receado que eu não fosse entender, mas não escondeu.

Então, lá por 1971, trabalhando de madrugada, pedi para o chefe não me deixar sozinho com o velho: "ele insiste em ficar junto de mim"; o chefe respeitou, mas espalhou pela empresa a história que o Tupy tinha medo, o velho virou a velha, a "velha da TerraFoto" e por   20 anos muitas foram as histórias com a "Velha da TerraFoto", vividas e contadas por muitos colegas. Agora penso e acho graça.