Lembranças que guardo e considero importantes e que de uma ou outra maneira, todos com quem convivo e convivi, sabendo ou não, puderam sentir e sentem o sabor doce ou salgado que é conviver com este filho da Neta.

Chico da Neta

Chico, Chiquinho Marques,

Francisco de Sales Marques Correa

Nasceu em 29 de janeiro de 1912, dia dedicado a São Francisco de Sales, razão do nome.
Um tio materno chamado Francisco Marques, assassinado durante o Levante Maragato, Federalista de 1893, fez com que o avô não permitisse a avó de chamar os outros tres filhos mais velhos de Francisco.


Pai, Avelino Gomes Correa, conforme sua certidão de batismo de 1868, já com 3 anos e órfão de pai, combatente na Guerra do Paraguai, Davi Gomes Correa. Avelino um artesão do couro, Guasqueiro, cultura guarani incorporada na formação do gaúcho; e fazedor nas divisas entre campos, muros ou cercas de pedras. A guasca guarani é admirada e relatada por Basílio da Gama em Uruguai, 1755, berço da cultura gaúcha.
Mãe, Caetana Marques da Conceição, quando solteira manteve um pequeno apiário.
O casamento de Avelino com Caetana é o primeiro registro do Cartório de Santiago-RS, por volta de 1890, primeiros passos da República.


Chico, órfão de pai, dos 7 aos 17 morou com a irmã 20 anos mais velha, pelas barrancas do Rio Uruguai. Ao voltar ganhou um cavalo e o irmão Ernane fez as guascas necessárias para ele usar no cavalo, conforme havia aprendido com o pai. Chico entendeu e aprendeu tudo desta arte só de ver o irmão trabalhar, talvez mais do que o Irmão. Em 1957 quando ganhei um petiço do vô, Chico tratou um coro de boi e outro de cavalo, desmanchou os dois em tentos, novelos de linha e cordão de couro e fez as guascas para mim usar no petiço. De olhar também aprendi alguma coisa. Neta falava de um jogo de rédeas, buçal e cabresto feitos com linha de crochê que Chico fez e presenteou alguém em Tupanciretã, nos anos de 1940.
Aos 18 foi ao quartel na Revolução de 1930, conheceu Itararé-SP, em 32 voltou a SP, esteve em Botucatu, e ficou no quartel até1938. 4º Regimento de Cavalaria, Sá Brito - Santo Ângelo, depois Santiago. A irmã com quem morou quando criança também foi morar em Santo Ângelo.

Retrato


De 1939 até 1969 trabalhou com retratos, foi retratista depois fotógrafo.
Existe um universo entre ele e o retrato. Iniciou em 1939 como mascate pelos comércios de carreira, campeando casamentos e festas durante o dia: a luz do dia para tirar e fazer o retrato; incorporando técnicas, acumulando conhecimentos; da chapa de vidro ao acetato, do magnésio ao refletor e lâmpada foto flood e flash eletrônico, da fotografia em contato e foto cópia ao ampliador, do preto e branco e preto e branco colorido com anilina ao colorido, reportagem e estúdio, álbum de família, quadro emoldurado e porta retrato, 3x4 para votar para trabalhar e viveu a decadência do retratismo que fazia a partir de 1960, com a popularização da fotografia. Nem imaginou o mundo digital. Para o Chico estúdio é onde se analisa o comportamento da luz.
No cemitério de Tupanciretã deve ainda existir uma galeria com muitas das suas fotos.
O retoque, exigência das chapas de vidro, da idade dos clientes, e costume da época, deve ser o que possibilitou ele desenvolver uma sensibilidade para análise de personalidade pelo olhar. "Olhar fala do passado, do presente, do caráter" as vezes ironicamente completava: "O que a natureza não dá, nenhuma escola ou vida social na capital pode suprir". Amargamos uma perseguição judicial por uma analise feita em um artigo publicado em jornal, associando o presente com o passado ligados ao caráter do padre e não era uma transparência como a do Moro. Em São Paulo nos anos 1970 e 80 era comum ele analisar fotografias de jornal e comentar enquanto mateávamos.

A Faca


Não sei quando descobri que a faca era um complemento inseparável do Chico: ele descascava uma laranja para mim, com se fora uma escultura e tampa em copinho, torneadinho forma de um cone, fazendo com que este zelo estético influísse no sabor e na vontade por ela; ou quando apontava o lápis para eu levar para a aula, outra escultura cuidadosamente trabalhada, como se fosse feita em um apontador, com simetria cilíndrica ao cone feito e proporção entre o corte e a ponta do grafite, irretocáveis. Carinho. Acompanhei este gaúcho campo e vida fora, até la fora, ele sempre com a faca na cintura, sem importar-se se estava acompanhado. A faca servia para medir com sua ponta, as gramas exatas de cada químico necessário para preparar um litro de revelador ou fixador fotográfico. A faca era instrumento indispensável no manejo do apiário, na poda do arvoredo. Lembro de um couro de um boi que ele transformou em alguns novelos de tento, (barbante). Fio de navalha feito em rebolo, eu operava a manivela. Inseparáveis, ele dela, ela dele, de fatiota ou de bombacha, a cavalo, a pé ou de bicicleta, na igreja, no cinema ou na lavoura.

Leitura


Por mais que eu venha a ler nunca irei suplantar o que Chico leu e comentou em crítica comigo desde quando eu ainda criança e ele lia Seleções, principalmente textos históricos militares da segunda guerra, e científicos.
Em 1969 comprei pela capa um livro de Sartre, "Meu Amigo Che", era tempo de ditadura, ele pegou para ler e nunca me devolveu, nem comentou, tempos depois leu a auto biografia de Sartre, dai ele comentou, nem Sartre desconfia do que sei da vida dele.

Mamãe


Em1968 estive com Oraide a irmã mais velha do Chico devia ter quase 80 anos, fiquei encantado ao ver aquela velhinha falar com jeito de guria: “a mamãe”; magia, música, oração, como se o tempo não tivesse passado, o espaço não existisse e ninguém tivesse ido a lugar algum. Carinho, valor humano que às vezes parece trafegar pelo acostamento. Referia-se a fatos de quase um século atrás, possibilitando abrir picada na história contada um dia, pela mamãe e pela vó, para a gurizada da casa, o principal devia ser o Chiquino, talvez com 5 ou 6 anos. É temerário comentar constrangimentos com piá. Risco de lambança. A mamãe, viúva ou não, com mais de cinquenta anos pariu um bebê, uma guria. E quando aquela vó, mocinha ainda, casou, assumiu a maternidade da guriazinha, sua irmãzinha caçula.
Aquela "mamãe", viva e presente pela parte que solidariamente se dividiu com a vó, filha e mãe de uma filha, que foi mãe de filhas; Mamãe, menina pobre que nasceu no feudalismo; carregou no nome a solidariedade de uma tal Conceição, que era Marques, identidade para o seu batismo, casamento e registro das filhas e filhos. Caetana Marques da Conceição. A lambança evitada aconteceu no final da I Grande Guerra.

Abelha


Virgilio. Verão, domingo ensolarado, hora da cesta, um enxame de abelhas cruzando a rua na frente de casa. Rapidamente Chico pegou uma lenha e uma lata de querosene, me entregou pedindo que eu batesse, que fizesse muito barulho. Enquanto eu batia, ele foi providenciar uma caixa para acomodar o enxame. O barulho causou uma desorientação no enxame, primeiro interrompendo a marcha, a seguir foram baixando até se acomodar em forma de uma bola, no galho de um cinamomo. Segui batendo até o enxame ser umedecido. Água nas asas da abelha impedem o vôo. O enxame foi capturado. No dia seguinte, o vizinho reclamou do barulho que eu fiz. Passados mais de 40 anos, vi uma ilustração alusiva a “Virgilio - Georgicas - Canto IV” de uma captura de enxame em trânsito a partir barulho. Chico tinha conhecimento, aplicou uma única vez, comigo.


No sítio, tarde de chuva, eu e Chico sentados junto a cobertura da garagem, eu tinha na mão um pequeno livro sobre abelhas, de Maeterlink; já na minha infância convivia com este livro de capa suja de rolar entre as ferramentas, sem ilustração. Fui folheando e lendo alguns títulos de capítulo, ele comentava o resto, comentário que ao longo de nossa vida em Tupanciretã, junto ao apiário, já tinha feito e mais de uma vez. Eu conhecia o livro e algo de Maeterlink e nem desconfiava.
Maeterlink após abordar sobre o vôo nupcial da abelha rainha, fala de três aparentes possibilidade para se encontrar a verdade, e numa dela situa o oprimido que encontra vantagem no tratamento mais severo do seu opressor, este mesmo oprimido que se nutre do conhecimento de oprimir para pô-lo em prática sempre que há possibilidade de oprimir alguém.


Coincidência ou determinação histórica? Caetana se dedicou à apicultura antes de 1890 e Chico foi se dedicar e identificar-se à apicultura depois de 1950. A apicultura favorece desenvolver o naturalismo pelo respeitou a natureza.
Fascinante conhecer a organização delas, a coleta do néctar, a polinização que é a fertilização dos vegetais através das flores, a colheita e transporte do pólen, a produção do mel e da cera, a construção geométrica dos favos com orientação segura para a armazenagem do mel, e se a família correr algum risco de agressão, parte para a defesa numa missão suicida, sem volta. Esta magia, mais a utilização da cera e do mel como alimento e remédio, o zelo pela saúde e segurança de tudo fazia do Chico um sacerdote neste culto à natureza.

Ne

No final dos anos 1950, creio que prevendo a decadência da fotografia passou a comercializar bois, comprava com 2 anos, invernava em campos de amigos e vendia com 4 anos. Assim foi até mudarmos para São Paulo. Em 1980 estava recomeçando no sítio em Juquiá - SP. Conhecia esta lida e o mercado.
O terreno de casa, em Tupanciretã, era formado por 3 lotes de 22 por 50, o lote do meio antes de se integrar em horta, galinheiro e pomar tinha uma casinha de madeira que era alugada, até que num contrato o inquilino, um sargento, ocupou e não pagou o aluguel. Chico não brigou, pediu licença para ir usando o terreno e numa folga do trabalho do vizinho e com ajuda dele, derrubaram no machado uma grande árvore, um velho cinamomo, em cima da casinha de madeira. Catástrofe. Chico se prontificou a indenizar o que quebrou e fazer a mudança para o sargento.
Era comum receber visitas dos seus amigos fazendeiros na galeria ou na sombra do caramanchão, muita prosa, muito mate e não raro propostas irrecusáveis. Chico sempre escutou a todas, nunca respondeu a nenhuma. Um dia no sítio, questionei porque não aceitou nenhuma? Sorrindo respondeu: "nas águas do Rio Uruguai, cada dia uma aula diferente, aprendi muitas; antes dos meus 15 anos, já te contei". Resumi: o capitalismo é o império da trapaça. 


Chimarreando


Chico repudiava o racismo e qualquer discriminação, "o homem precisa ser mulher e a mulher precisa ser homem, negro ser branco e branco ser negro; ainda piá sabia se um é o outro ninguém é mais do que o outro. Mas dizia que enquanto o gringo não conseguir se sentir gaúcho no tempo de toda ancestralidade gaúcha, não pode ser gaúcho; sem perder a ligação com a origem de onde emigrou e ter a vontade".
Ele brincava com a Neta, sobre sobre viver em outra geração, ser mulher e negra e ela completava.
Eu tinha uma determinação para ser gaúcho. Chico era gaúcho, Neta e todos os avós também, mas eu tinha medo que não pudesse ser, naqueles anos de 1950, gringo era gringo, gaúcho era gaúcho. E Chico falava que, gaúcho é a vida do próprio gaúcho; todos dizem que sabem, mas nem todos sabem; a vida é dona de tudo, onde ela está, esteve e estará, e tudo tem muitas vidas muitos donos; cercaram os campos, negaram direitos, mas não tiraram a propriedade.
Fazíamos tropeadas curtas, de um dia inteiro no máximo, com direito a cesta, frango enfarofado fogo no chão e chimarrão. Para termos uma cambona; caneca achatada para levar nos tentos em baixo dos pelegos, utilizada para aquecer a água para o mate em fogo de chão; Chico fez uma alça com arame grosso em uma lata retangular de azeite e me falou que este tipo de cambona era conhecido por xicolateira. Há pouco tempo é que entendi a brincadeira. Usamos aquela xicolateira por mais de 25 anos.

Inferno ou comedia?

Julho de 1982, comentou que sonhara com sua mãe: “ele criança na margem de um rio e sua mãe do outro lado, caminhado atravessou o rio e de mãos dadas seguiram os dois pelo campo”. Alguns dias depois ele nos deixou. Em 2004 tive a oportunidade de ler alguma coisa na Divina Comédia, li a chegada de Dante ao paraíso atravessando um rio para estar ao lado de Beatriz que esperava por ele.